FNAMzine #6 - Unidos pelo Futuro dos Médicos e do SNS - Flipbook - 16
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No caso particular do IPO, não estava tanto relacionada
com a urgência, mas com o prolongamento diário da jornada
de trabalho e com o número de doentes em seguimento
em consulta. Teresa Martins
Em situações agudas, pode haver
m a rca çõ e s p r i o r i t á r i as , m as n ã o
podemos falar de uma oferta equivalente
à de um serviço de urgência. São raros
os serviços de psiquiatria com equipas
multidisciplinares estruturadas nos
hospitais privados. Não há aptência por
uma verdadeira organização em equipa
ou em serviço, como acontece no público.
FZ: E como foi a sua experiência no
setor social?
JC: Optei por experimentar um desafio
no setor social porque se tratava de
uma instituição que já tinha um serviço
montado, com uma organização mais
semelhante à do setor público, com
respostas ao nível da doença crónica,
mas também da doença aguda — algo
que escasseia não só aqui no Porto, mas
em todo o país.
O que aconteceu com esse projeto é
paradigmático. Apesar das intenções
e do investimento iniciais, foi-se
percebendo, ao longo do tempo,
que era difícil para a instituição
manter essa aposta. Tratamse de investimentos que
demoram a ter retorno e que
assentam na transferência
quase direta do custo dos
a c to s c l í n i co s p a ra o s
doentes, presisonando a
própria prática médica. A
expectativa de encaixe
financeiro destas
instituições parece-me
redutora e irrealista na
área da saúde mental.
Resumindo, não geram
lucro imediato ou
significativo.
µ FNAMZINE | CONVERSA DE MÉDICOS
TERESA MARTINS (TM):
Sou também pediatra. Fiz o meu
internato no Hospital Garcia de Orta,
em 2016.
Depois de concluir o internato,
permaneci cerca de quatro meses,
m e s m o sa b e n d o q u e n ã o t i n h a
p e r s p e t i va d e co l o c a ç ã o co m o
especialista. Foi precisamente nesse
contexto que começou o meu contacto
esporádico com a urgência de um
hospital privado, que, curiosamente,
acabou por ser o hospital onde
trabalho hoje.
FZ: Curiosamente porquê?
TM:Porque entre uma coisa e a outra
passaram-se alguns anos. Em 2016 fui
trabalhar no Serviço de Pediatria do
Instituto Português de Oncologia (IPO)
de Lisboa, onde permaneci até 2022
e onde me diferenciei em Oncologia
Pediátrica.
Em 2022, motivada por questões que
acredito serem transversais a muitos
de nós e a vários hospitais públicos
— não apenas o IPO — e também por
fatores pessoais, nomeadamente
a proteção da parentalidade, que
considero insuficiente no SNS, acabei
por rescindir o contrato com o IPO
e passar a trabalhar em regime de
prestação de serviços no setor privado,
mantendo também algum contacto
pontual com serviços de urgência de
hospitais públicos.
FZ: Além da falta de apoio na
parentalidade, houve outros fatores
que a levaram a afastar-se do setor
público?