FNAMzine #6 - Unidos pelo Futuro dos Médicos e do SNS - Flipbook - 22
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“ACHO QUE TODOS DEVEMOS TER
EXIGÊNCIAS PARA QUEM GOVERNA”.
FZ: Como avalia o funcionamento do
SNS e de que forma poderia melhorar?
JO: Globalmente, o SNS funciona bem.
Resolve os problemas de uma grande
parte da população e, apesar das
dificuldades, as pessoas sabem que,
se forem ao centro de saúde ou ao
hospital públicos, encontram resposta.
Há falhas, claro, muitas resultam de
insuficiências acumuladas ao longo do
tempo.
O SNS foi criado com uma arquitetura
ass e n te n o s cu i d a d o s d e sa ú d e
primários, acompanhando o percurso
de cada doente e de cada família
e agenciando o recurso ao nível
hospitalar quando necessário.
Essa arquitetura, escolhida em 1979,
continua a ser a mais adequada.
Considero mesmo que a principal
causa das dificuldades atuais reside na
descaracterização e enfraquecimento
da estrutura e modo de funcionamento
iniciais, por via de ilusões
O SNS foi
criado com uma
arquitetura
assente nos
cuidados de
saúde primários,
acompanhando o
percurso de cada
doente e de cada
família.
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tecnocráticas e gestionárias, próprias
do neo-liberalismo e adequadas à
comercialização e financeirização do
sistema, mas que são atentados a um
serviço público no verdadeiro sentido
da palavra, que existe para servir as
pessoas e responder às necessidades
das populações.
FZ: Então não vê necessidade da
chamada reforma do SNS?
JO: O SNS não carece de modificação. Do
que necessita é de um forte reforço da
estrutura e do modo de funcionamento
com que foi criado, adequando-o,
é claro, aos progressos científicos e
evolução social entretanto registados,
mas sem tergiversações acerca do
financiamento e prestação públicos.
Infelizmente, cada vez que os diversos
governos têm falado de reforma tem
sido para induzir mais externalização e
exploração privada da doença.
Em Po r t u gal , a p r i va t i za çã o te m
avançado sobretudo desse modo. Foi
um caminho seguido no Reino Unido
com o National Health Service, mas que
os próprios britânicos já reconheceram
como um erro, porque resulta em
desestruturação organizacional, com
mais despesa e piores resultados.
Temo bem que a nova Lei de Bases
da Saúde, que se anuncia, seja para
trazer mais facilidades à privatização e
consequente degradação do Serviço.
FZ: Como avalia o papel da indústria
farmacêutica na relação com o SNS?
JO: A indústria farmacêutica tem como
objetivo o lucro e as suas margens são
muito elevadas.
Num hospital como o IPO de Lisboa,
a despesa com medicamentos pode