FNAMzine #6 - Unidos pelo Futuro dos Médicos e do SNS - Flipbook - 23
µ 23 | FNAMZINE | março 2026
Aos jovens médicos diria que a profissão continua a ser muito interessante
e gratificante, desde que seja praticada e vivida em torno das necessidades
dos doentes ajudando-os a evitar e a ultrapassar dificuldades.
representar mais de um terço do
orçamento. Ora, a importância real
dos medicamentos não corresponde
a tanto. O diagnóstico, hoje muito
tecnológico, e as terapêuticas não
medicamentosas têm enorme
relevância e, globalmente, não são tão
dispendiosas.
Em todas as latitudes, as pessoas
têm desmesurado apetência
por medicamentos, cujos preços
crescem muito mais em função da
disponibilidade para pagar que dos
custos de investigação e de produção ou
do valor terapêutico real.
A indústria farmacêutica não desperdiça
esta característica, multiplicando-a
com atividades promocionais muito
persuasivas, a que os profissionais e
estabelecimentos do SNS têm muita
dificuldade de resistir.
Reconheço que dizer que a difusão dos
medicamentos nem sempre coincide
com as reais necessidades das pessoas
é pouco popular.
Mas às vezes é verdade. Isso não invalida
os avanços muito significativos, tanto
no tratamento do cancro como de
muitas outras doenças.
FZ: E como se definem as políticas
públicas? O interesse público está
salvaguardado?
JO: Em Portugal, tal como noutros países,
os pareceres sobre o valor terapêutico
acrescentado e vantagem económica
dos medicamentos comercializados
na União Europeia, para decidir se
serão comparticipados pelo SNS, são
produzidos por uma Comissão de
Avaliação de Tecnologias de Saúde,
que funciona no âmbito do INFARMED
mas é constituída por peritos externos.
Esses pareceres são depois utilizados,
a nível interno no INFARMED, para
as negociações com as companhias
farmacêuticas sobre preços e eventuais
co n d i çõ e s d e co m p a r t i c i p a ç ã o .
Infelizmente, mas também a exemplo
doutros países, essas negociações
são confidenciais, por imposição da
indústria farmacêutica, que alega
razões comerciais...
FZ : Fa r i a s e n t i d o a ca ba r co m e s sa
confidencialidade?
JO: Faz sentido, sim. A confidencialidade
impede a adequada gestão da utilização
por parte dos estabelecimentos do SNS.
Mas não pode ser uma decisão isolada de
um país. Teria de ser uma decisão global.
É o género de questão que justifica um
movimento reivindicativo organizado
internacionalmente.
REVITALIZAR O SNS
FZ: Como vê o regresso das Parcerias Público Privadas (PPP) na gestão da saúde?
JO: Vejo como mais uma tentativa de externalização da prestação de cuidados.
A prova de que as PPPs não beneficiam o SNS é que, se os contratos de PPP forem bem
feitos e defenderem verdadeiramente o interesse público, a gestão privada perde o
interesse. Só lhes interessa quando os contratos são mal negociados por parte do Estado
FZ: Os Centros de Responsabilidade Integrados (CRI) são uma boa solução?
JO: Atualmente, já nem sei bem o que são os CRI. Inicialmente, na primeira legislação
sobre CRIs, no início deste século, destinavam-se a integrar responsabilidade clínica
e financeira. Atualmente, duvido que haja compreensão geral sobre que integração
e que responsabilidade. Tenho a sensação de que estão a ser usados sobretudo para
pagar mais a determinados profissionais, de uma forma que não seria possível pela
remuneração regular. Está-se a gastar muito dinheiro em incentivos “à produção”
e pagamentos à peça, as piores formas de remunerar profissionais de saúde
FZ: Qual seria então o melhor caminho?
JO: Uma solução apontada pela FNAM é o aumento global dos salários. Além disso, um CRI
como uma ilha dentro de um hospital não faz sentido e tem grande potencial para gerar
conflitos internos e desequilíbrios nas equipas. Um hospital só funciona bem se estiver
tudo organizado segundo a mesma lógica clínica e multidisciplinar. Caso contrário, não
vejo como possa resultar.
FZ: Que mensagem deixaria aos governantes e aos jovens médicos que entram na profissão?
JO: Aos governantes, não tenho conselhos a dar. Se aceitassem conselhos, fariam
as coisas de outra maneira. Acho que todos devemos ter exigências para quem governa.
Aos jovens médicos diria que a profissão continua a ser muito interessante e gratificante,
desde que seja praticada e vivida em torno das necessidades dos doentes ajudandoos a evitar e a ultrapassar dificuldades. Aconselhá-los-ia a desenvolver espírito crítico
e a não se deixarem seduzir por miragens tecnológicas propiciadoras da repetição
de atos muito atraentes e lucrativos, mas com pouco ou nenhum valor para a saúde
das pessoas que se nos confiam.
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