FNAMzine #6 - Unidos pelo Futuro dos Médicos e do SNS - Flipbook - 28
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Estudantes - Entrevista conjunta
O PRESENTE E O FUTURO DO ENSINO
Entrevista conjunta com CAROLINA DOMINGUES, Presidente da AEICBAS (Associação de Estudantes do
Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto), e MARTIM MAÇÃES, Presidente da
AEFMUP (Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto), sobre a realidade do
ensino da Medicina e as expectativas dos futuros médicos que se estão a formar.
FNAMZINE (FZ): O que têm
achado do curso?
CAROLINA DOMINGUES
(CD):Estou no quinto ano.
Sinto que as expectativas
acabaram por corresponder
àquilo que eu esperava.
Acho que aquilo que mais me
chocou — e que é também
uma preocupação para mim
neste momento
— é que, à medida que
ava n ça m o s pa ra o c i c l o
clínico, temos uma noção
muito mais presente
do cansaço dos nossos
professores. Em algumas
c a d e i ra s t e m o s t u r m a s
m u i to g ra n d e s , co m u m
rácio de estudantes por
professor longe do ideal.
Também sentimos o cansaço
dos docentes, que têm
dificuldade em conciliar a
carreira de ensino clínico
com a sua prática enquanto
médicos.
MARTIM MAÇÃES(MM):
Ta m b é m s o u e s t u d a n t e
do quinto ano e partilho
d a o p i n i ã o d a Ca ro l i n a ,
porque há algumas unidades
curriculares em que temos,
de facto, um rácio de
estudantes por professor que
não é o ideal.
µ FNAMZINE | AEICBAS
FZ: Como é que olham para o
internato médico?
MM: Acho que alguns colegas,
em função do que vão ouvindo
dos mais velhos, já pensam
na escolha do internato de
formação geral com certas
reservas: “ok, não vou colocar
este ou aquele hospital
porque sei que existe a fama
de que vou trabalhar mais
horas, fazer mais noites”,
entre outros aspetos. O SNS
continua a ser a melhor forma
de ensino, é onde temos
acesso a casos complexos
que não vão parar ao privado.
São oportunidades de
aprendizagem muito grandes.
Uma das tradições no ICBAS é o foco
na escrita das histórias clínicas.
FZ: Em termos de currículos
e métodos de ensino?
M M : Q u a n d o e n t ra m o s
no curso de Medicina,
romantizamos aquilo que
vai ser o futuro. Vemos
o curso de uma forma
muito idílica e, à medida
que avançamos, vamos
percebendo que há aspetos
do percurso que não são
exatamente aquilo que
estávamos à espera. No
entanto, acho que o curso
está, de facto, a ser atualizado.
CD:Uma das tradições no
ICBAS é o foco na escrita
das histórias clínicas. Não
tanto o escrever em si — que
hoje em dia, com o ChatGPT,
qualquer um consegue
fazer uma história clínica
excelente — mas a forma como
a defendemos, na avaliação
oral. As defesas orais estão a
ganhar cada vez mais peso, e
acho que isso é importante.
C D : O p ro b l e m a c o m e ç a
logo no acesso ao próprio
internato médico. É muito
ingrato para alguém que
estuda seis anos chegar ao
fim e não poder escolher fazer
aquilo de que mais gosta. As
vagas são tão limitadas que,
no quinto ano, os estudantes
já quase preveem que há
especialidades que nunca vão
alcançar. Isso, por si só, é uma
grande desmotivação. Além
disso, há a sobrecarga. Muitas
vezes, as pessoas nem têm
noção de que é um médico
interno que as está a atender,
em horários mais atípicos, a