FNAMzine #6 - Unidos pelo Futuro dos Médicos e do SNS - Flipbook - 30
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Noel Carrilho Presidente do SMZC
“PORTUGAL, ATÉ PELA HISTÓRIA DO SNS,
TEM OFERECIDO UMA RESISTÊNCIA EXEMPLAR”
FNAMZINE (FZ): Como foi ser presidente da
FNAM durante a pandemia de Covid-19?
Noel Carrilho (NC): Foi muito desafiador. Os
médicos, penso eu de uma forma positiva,
foram encarados numa dupla faceta: a
de quem cuida e trata. Foi um período de
grande valorização dos prestadores de
cuidados, em particular dos médicos.
FZ: Sentiram com emoção as salvas de
palmas e o reconhecimento da população?
NC: Efetivamente. Mas tenho pena que
ago ra m al s e ve j a m o s e co s d e ssas
pal m as . Pe n s o q u e fo ra m s e n t i d as
e honestas, houve essa valorização,
m a s o p o d e r p o l í t i co n ã o a s o u b e
interpretar e continuamos à espera de a
ver concretizada. Continuamos com um
déficit de condições de trabalho. Isto não
aconteceu por culpa, obviamente, de quem
bateu as palmas, mas de quem devia ter
estado à altura e não esteve. As palmas
foram algo simbólico, que ajudou, que
se sentiu, que nos deu coragem, porque
também tivemos medo do que estávamos
a viver. Eu, como outros médicos, tive de
deixar os meus filhos ao cuidado de outros,
vi-os de forma muito ocasional.
NOEL CARRILHO
Cirurgião Geral na ULS de Viseu DãoLafões, é o presidente do Sindicato
dos Médicos da Zona Centro, cargo que
ocupou também durante a pandemia,
em simultâneo com a presidência da
FNAM, no triénio 2020-2022. Licenciado
pela Universidade de Coimbra, fez a
sua especialidade em Viseu. Nos seus
tempos livres gosta de ler, praticar
ciclismo e viajar.
µ FNAMZINE | NOEL CARRILHO
FZ: A resposta dada foi a prova dos nove de
que o SNS é insubstituível?
NC: Eu diria que essa prova dos nove era
desnecessária. Foi um desempenho bom
numa situação extrema, mas para quem
vive dentro do SNS ele sempre foi o garante
da saúde tendencialmente universal para
as pessoas.
FZ: Como se comportou o poder político?
NC: Não estiveram à altura. Em todo esse
período, e até antes do início da pandemia, a
ministra Marta Temido recusou sempre falar
com os médicos. Podemos ter discordâncias
de opinião sobre o que se deve ou não fazer,
mas a recusa de negociação e até de diálogo
com os médicos foi um desperdício de uma
oportunidade.
FZ: De lá para cá, que grandes diferenças se
assinalam?
NC: Infelizmente, penso que avançamos
pouco. Avançámos alguma coisa em termos
de perspetiva negocial, mas tem faltado
vontade política real para resolver os
problemas na saúde.
FZ: Porque as soluções existem?
NC: Existem, como a FNAM tem vindo a
assinalar, e algumas dessas soluções
seriam até bastante fáceis.
FZ: E porque é que falta vontade política?
NC: N ã o h á v o n ta d e p o rq u e n ã o h á
interesse em preservar o SNS. Agora, de
forma absolutamente descarada, diria
que quem está no poder quer que o SNS
seja uma coisa mais pequena, invertendo
aquilo que deve ser o seu papel. Querem
torná-lo complementar, ou algo apenas
virado para quem não tenha posses para
sustentar a saúde privada.
FZ: A experiência na FEMS, enquanto
secretário-geral, mostra que os desafios
internacionais são idênticos aos vividos
em Portugal?
NC: Eu diria que Portugal, até pela história
do SNS, tem oferecido uma resistência
exemplar. Quem pretende destruir o SNS,
desmantelá-lo para o vender às peças, temse surpreendido com a resiliência de quem
nele trabalha e tenta mantê-lo. Em outros
países, essa resistência tem caído de forma
bastante mais rápida.