FNAMzine #6 - Unidos pelo Futuro dos Médicos e do SNS - Flipbook - 31
µ 31 | FNAMZINE | março 2026
Joana Bordalo e Sá Presidente do SMN
“OS MÉDICOS SINDICALIZAM-SE QUANDO SE
SENTEM REPRESENTADOS DE FORMA FIRME,
CONSISTENTE E SEM HESITAÇÕES”
FNAMZINE (FZ): Quais foram os principais
desafios da presidência da FNAM?
Joana Bordalo e Sá (JBS): Estar no terreno, ao
lado dos médicos, a defender condições de
trabalho reais, dar visibilidade aos problemas
do dia a dia, torná-los perceptíveis para a
população e apresentar soluções concretas
para o reforço do SNS. Liderámos lutas
duras, acionámos todos os mecanismos
legais disponíveis e forçámos finalmente o
fim do bloqueio negocial deste governo de
Montenegro.
FZ: Como se sintetizaria a relação com o poder
político?
JBS: Com total autonomia e frontalidade. A
FNAM não faz jogos de bastidores nem serve
de muleta a governos. Negociamos quando
há seriedade e disponibilidade real para
resolver problemas, e denunciamos quando
há propaganda ou encenação política. Não
trocamos direitos por reuniões nem por
promessas vagas. A nossa lealdade é clara: aos
médicos e ao SNS — e não ao poder político.
FZ: Quais as grandes diferenças entre o
Ministério da Saúde de Manuel Pizarro e o de
Ana Paula Martins?
JBS: Mudaram os discursos, os
enquadramentos e o estilo político, mas
o essencial manteve-se. Ambos falharam
em negociar medidas estruturais capazes
de atrair e fixar médicos no SNS. Nenhum
enfrentou o problema central: contrapor a
desvalorização contínua dos profissionais e
das suas condições de trabalho.
FZ: Ao longo do mandato foi sublinhada a
falta de vontade política dos sucessivos
ministérios. A que se deve essa falta de
vontade?
JBS: Há uma escolha política clara - não
investir seriamente no SNS. Falta orçamento,
faltam profissionais, faltam meios básicos.
Como se faz boa medicina quando chove
dentro de gabinetes de consulta? Como
se cuida de pessoas quando falta papel
higiénico nos serviços? Enquanto isso,
o setor privado anunciou, ao longo
do último ano, investimentos
superiores a 1.500 milhões de
euros, onde a carência de serviços
públicos é maior.
FZ: A FNAM diz ter as soluções para
fixar médicos no SNS. Quais são?
JBS: São conhecidas e claras:
salários justos e condições de
trabalho dignas. Uma carreira
médica com progressão, o
internato integrado na carreira,
horários humanos, reposição de
direitos perdidos como dias de férias,
proteção efetiva da parentalidade e um
regime de dedicação exclusiva opcional
e d e v i d a m e n te m aj o ra d a . Fi xa r
médicos não é pedir sacrifícios — é
criar condições para querer ficar.
JOANA BORDALO E SÁ
Oncologista médica no IPO do Porto. Licenciada pelo ICBAS e mestre pela
FMUP, tem experiência em voluntariado médico no Líbano, na Índia e na
Guiné-Bissau , contextos que marcaram profundamente a sua visão sobre o
direito à saúde e as desigualdades no acesso aos cuidados de saúde.
É Presidente do Sindicato dos Médicos do Norte e foi Presidente da FNAM no
triénio 2023–2025. Fora do Instituto e da intervenção sindical, encontra na
leitura, no teatro e nas viagens outros modos de pensar o mundo.
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