FNAMzine #6 - Unidos pelo Futuro dos Médicos e do SNS - Flipbook - 33
µ 33 | FNAMZINE | março 2026
André Gomes Presidente do SMZS e da FNAM
“A NEGOCIAÇÃO É SOBRE QUANTOS
PASSOS SE AVANÇAM, NÃO SOBRE
QUANTOS SE RECUAM”
FNAMZINE (FZ): Como é ser o mais jovem
presidente da história da FNAM?
ANDRÉ GOMES (AG): Dominam-me
d o i s s e n t i m e n t o s . E m p r i m e i ro
lugar, um profundo sentido de
responsabilidade. Estar à frente da
FNAM e suceder a presidentes como
a Joana Bordalo e Sá, o Noel Carrilho
ou o João Proença, que marcaram
a história da Federação e dos
seus sindicatos, traz-me um forte
sentido de missão: honrar esse
legado e, se possível, ampliá-lo,
num trabalho coletivo.
O segundo sentimento é o de
tranquilidade. Apesar da exigência
d a ta re fa , h á a s e re n i d a d e d e
saber que existe um trabalho de
continuidade. A FNAM é uma Federação
de três sindicatos, cada um com a
sua autonomia, que continuará a ser
respeitada.
FZ: O SNS está debaixo de fogo cerrado.
Tem sido difícil negociar, com grande
falta de vontade política por parte
dos sucessivos governos. Está agora
em curso um protocolo negocial. Que
expectativas existem?
AG: É um privilégio dar continuidade ao
trabalho desenvolvido anteriormente,
que permitiu a abertura de um processo
negocial, precedido por um forte
movimento reivindicativo. A situação do
SNS exige uma mudança de atitude por
parte do governo e o reconhecimento
da necessidade de alcançar medidas
que permitam fixar médicos. Vivemos
uma realidade insustentável, com
falta de médicos em vários serviços,
estando muito perto de um ponto de não
retorno. Espera-se que este processo
seja encarado como uma verdadeira
oportunidade para o governo.
FZ: O que dizer a quem acusa os médicos
de corporativismo? Que soluções
propõe a FNAM para além da questão
salarial?
AG: Falar em corporativismo médico é
ignorar o legado do SNS e os seus efeitos
positivos na população. Quando a FNAM
defende melhorias na carreira médica,
está antes de tudo a defender os utentes.
As soluções não se limitam às grelhas
salariais: a reposição das 35 horas, a
exclusividade, garantia de progressão,
melhores condições de trabalho e a
integração dos médicos internos são
essenciais para fixar médicos no SNS.
FZ: A FNAM e os seus sindicatos têm
crescido significativamente. A que se
deve esse crescimento?
AG: A FNAM soube ler o tempo em que
vivemos. Nos últimos 10 a 15 anos,
os médicos perderam entre 20% e
30% do poder de compra, com uma
desvalorização salarial próxima de um
terço. A FNAM interpretou essa realidade
e adaptou-se às novas linguagens, às
tecnologias digitais, às redes sociais e
ao diálogo com as novas gerações de
médicos.
FZ: Como interpretar a falta de vontade
política dos sucessivos governos em
negociar com os médicos?
AG: Existem duas leituras possíveis: uma
visão liberal que procura reduzir o SNS
e reforçar os setores privado e social,
e outra baseada no desconhecimento
d o i m pa c to real d as p o l í t i cas d e
saúde. As propostas da FNAM não são
revolucionárias, mas sim de reposição
de direitos retirados durante o período
da troika.
FZ: A FNAM continuará a recusar negociar
a perda de direitos?
AG: Essa é a linha vermelha da FNAM.
Existe um ponto de partida, e esse
ponto de partida são os direitos já
conquistados. Numa negociação não
se entra para perder direitos; entra-se
para, na medida do possível, os reforçar.
O acordo coletivo é o nosso ponto zero.
A negociação é sobre quantos passos se
avançam, não sobre quantos se recuam.
FZ: Se fosse possível visitar o futuro, o
que gostaria de ver conquistado daqui
a três anos, no final do mandato como
presidente da FNAM?
AG: Gostaria que fosse possível garantir
a integração do internato na carreira
médica, o regresso às 35 horas semanais
e a dedicação exclusiva. Tenho a plena
convicção de que, com estas três
medidas, o SNS sairia mais forte, mais
atrativo e com maior capacidade para
motivar e fixar os seus médicos.
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