FNAMzine #6 - Unidos pelo Futuro dos Médicos e do SNS - Flipbook - 37
µ 37 | FNAMZINE | março 2026
FNAMZINE (FZ): Como tem sido a
caminhada desde a Marta Bateira
do design de moda, à rapper M7 e à
humorista Beatriz Gosta?
MARTA BATEIRA (MB): Quando tens 18
anos e tens de decidir o que vais ser,
é muito complicado, porque é uma
pressão muito grande. Eu não tinha
qualquer talento evidente, então fui
um bocadinho pela influência do meu
irmão, que já era designer de moda.
Paralelamente, com a Capicua e com
outro grupo que tinha, deixei-me
contagiar pelo hip-hop. No Porto, o
hip-hop vinha muito dos bairros mais
pobres ou da classe média baixa —
Campinas, Aldoar, onde eu vivia, Vilar,
entre outros.
FZ: Qual é a história por trás do nome M7?
MB: É uma espécie de feminino de MC e
também porque eu tinha um flow muito
rápido e agressivo. Como também é o
nome de uma metralhadora, ficou.
FZ: E a Beatriz Gosta, quando surgiu?
Tem novos projetos na calha?
MB: Surgiu quando larguei o rap e
comecei a fazer stand-up. Ainda estou
a trabalhar no “Resort”, mas terei um
novo projeto em breve. Costumo fazer
digressão durante dois anos, três no
máximo.
FZ: Em Portugal, mas também a nível
internacional, o stand-up explodiu,
com uma nova geração de artistas mais
comprometidos. Foi acaso ou sente-se
parte de um movimento?
MB: Acho que tanto no rap como no
humor é possível ter uma mensagem
interventiva. O rap é mais direto. No
humor conseguimos de forma mais
disfarçada passar uma mensagem,
deixar um bichinho, uma semente.
A t rav é s d o h u m o r n ã o h á u m a
resistência tão grande. Na música
também é possível: a Capicua, com
p o e s i a , c r i a u m a e m pa t i a m u i to
forte com o público. Não sei se é
coincidência, mas acho que somos uma
geração que passou por várias fases
e já viu muita coisa. Os nossos pais
incutiram-nos que a liberdade não se
pode perder. Estamos a viver tempos
muito céticos; não podemos ficar em
cima do muro.
FZ: Ser uma mulher do Norte e muito
frontal marcou o seu percurso? De que
maneira?
MB: O boom da Beatriz Gosta aconteceu
quando eu tinha 32 anos, já era algo
madura. Nunca quis anular o meu
sotaque. Muitos portuenses anularamno para se enquadrar em Lisboa e
ter mais trabalho. Eu perco muitas
oportunidades por falar assim, por
viver no Porto, mas também não
faz sentido ser de outra forma. Não
poderia estar a limar ou a higienizar a
maneira como falo.
FZ: E como foi abordar a sexualidade
sem tabus?
MB: Foi um choque para muita gente ver
uma mulher a falar assim. Só os homens
é que podiam ser brejeiros.
FZ: Como é lidar com a crítica de quem
não gosta?
MB: O que mais me insulta é a parte física. Os homens podem aparecer gordos,
com a camisa desgarrada, sem grandes
preocupações. A mulher é muito criticada, há uma exigência enorme. Costumava ler os comentários e às vezes até
responder, mas é muito desgastante.
Agora tento ignorar. Os tempos estão
tão difíceis que o ódio está muito pesado.
Querem privatizar muita coisa
e é um perigo. A saúde, a
educação e a habitação têm
de ser prioridade, têm de
estar à frente de qualquer
outra coisa.
FZ: Que perceção tem do SNS?
MB: Quem manda não o considera
uma prioridade. Este governo é o
fim da linha, mas o anterior também
vacilou. Querem privatizar muita coisa
e é um perigo. A saúde, a educação e a
habitação têm de ser prioridade, têm
de estar à frente de qualquer outra
coisa. Quem quer privatizar tudo
pensa no “cada um por si”, não no
coletivo. São os mais pobres que se
vão perder. Chamas uma ambulância
e demora eternidades. E eles não se
importam. Mesmo com pressão social,
ninguém se demite. Grandes cenários,
grandes escândalos, e nada. Noutros
governos a pressão era tanta que o
povo despedia ministros. Agora é mais
“daqui ninguém me tira”, “está ótimo e
vamos embora”. Já nem disfarçam.
FZ: O que diria aos médicos que
resistem no SNS?
MB: Acho que deveriam ser bem
remunerados, porque quando são
bem pagos não têm tanta tentação
de ir para o privado. Devia haver mais
reconhecimento, mais médicos e
mais enfermeiros. A saúde tem de ser
prioritária, porque é básica e essencial.
Não queremos ficar como nos Estados
Unidos da América, onde, se não
tens seguro, não és atendida à porta
do hospital. Médicos e enfermeiros
precisam de estofo para estar na linha
da frente, como se viu na pandemia.
Acho que se sentem abandonados,
negligenciados. E nem tudo é dinheiro
— é também a falta de reconhecimento.
µ FNAMZINE | “BEATRIZ GOSTA”/ MARTA BATEIRA