FNAMzine #6 - Unidos pelo Futuro dos Médicos e do SNS - Flipbook - 39
µ 39 | FNAMZINE | março 2026
...comecei
a reparar que mesmo
após completar
o internato, a
qualidade de vida
não parecia melhorar.
Olhava à minha volta
e o cenário era o
mesmo: incapacidade
de conciliar a vida
profissional com
a vida privada,
desesperança,
exaustão, desencanto
com a especialidade
e com a prática
clínica diária.
FZ: Quais foram os principais desafios?
BL: A língua, mas fiquei agradavelmente
surpreendida com a disponibilidade dos
meus colegas e com a forma calorosa como fui recebida.
FZ: Como descreveria as condições de
trabalho que tinha em Portugal?
BL: Agenda superlotada, onde as consultas extra são a regra e não a exceção. Pouco tempo para dedicar a cada doente. Excesso de burocracias, processos antiquados e inadequados. Sistema informático
lento e ineficaz, atrasos na marcação dos
exames auxiliares de diagnóstico e, uma
vez feitos, atrasos nos relatórios. Pouca
colaboração multidisciplinar.
FZ: Quais são as principais diferenças?
BL: Há grande autonomia profissional: o
médico mantém independência clínica,
participa na organização do seu trabalho
e tem liberdade na forma como estrutura
a sua carreira.
FZ: Como compara a relação com colegas, chefias e administrações nos dois
contextos?
BL: A colaboração entre especialidades é
muito mais fácil, existe maior motivação
e disponibilidade.
FZ: Em termos salariais, a mudança foi
significativa?
BL: A diferença salarial é abismal.
FZ: Como avalia atualmente o equilíbrio
entre vida profissional e pessoal?
BL: Melhorou consideravelmente. A semana de 4 dias de trabalho é, sem dúvida,
uma mais valia.
FZ: Sente falta de Portugal?
BL: A nível profissional sinto falta dos meus
colegas, em particular da equipa maravilhosa que me formou em Guimarães.
FZ: Consideraria regressar a Portugal?
BL: Sim, desejo regressar a Portugal, mas
infelizmente, face à situação atual do
SNS, um regresso à prática clínica não me
parece realista.
FZ: Que mudanças considera essenciais
no SNS para tornar esse regresso viável?
BL: Acho que uma discussão séria e sem
tabus relativamente ao estado atual do
SNS é urgente.
O SNS está desatualizado, inadaptado à
realidade e não responde às necessidades nem das novas gerações de médicos,
nem da população. Tem de haver uma
verdadeira valorização da carreira médica, com bons salários e com autonomia
clínica.
FZ: Que conselho deixaria a um médico
português que esteja a ponderar emigrar?
BL: Emigrar não é fácil. Uma reflexão profunda sobre as razões que levaram a esta
escolha poderá ajudar a ultrapassar as
dificuldades.
µ FNAMZINE | BÁRBARA LIMA