FNAMzine #6 - Unidos pelo Futuro dos Médicos e do SNS - Flipbook - 8
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Relatos SNS Hospitalar
A Transformação Silenciosa
no SNS – Um caminho de 25 anos
ANDRÉ C. CARVALHO
ASSISTENTE GRADUADO EM ENDOCRINOLOGIA
E NUTRIÇÃO, HOSPITAL DE SANTO ANTÓNIO
Em janeiro de 2001 iniciei a minha “carreira”
médica no Serviço Nacional de Saúde
(SNS). Vinte e cinco anos depois, sinto uma
certa urgência em fazer um balanço.
Neste quarto de século assistimos a
uma transformação profunda e, muitas
vezes, silenciosa da concepção da saúde
em Portugal: de um direito universal e
de bem público, alicerce fundador do
SNS, para uma realidade onde a saúde
(co)existe, de forma cada vez mais
explícita, como um bem transacionável.
Esta metamorfose não resultou de uma
mudança declarada de princípios, mas
antes da convergência de pressões
económicas, opções políticas e correntes
neoliberais tácitas.
O subfinanciamento crónico dos serviços
públicos aliado à crise financeira de 2008
e, sobretudo, à intervenção da troika
foram pontos de viragem. As exigências
de contenção orçamental impuseram
uma lógica de racionalização de custos
acima de tudo. A saúde passou a ser vista
e gerida com métricas típicas do setor
industrial: produtividade (consultas/
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hora, atos/cirurgia), redução de custos
por processo, contratualização de
objetivos, etc. A linguagem do utente
e médico passou a conviver com a
do cliente e do fornecedor. Este foi o
primeiro passo para uma importante
transformação de narrativa: o acto
médico passou a ter um preço de custo
explícito e a sua produção tornou-se
um imperativo de gestão. Um canto de
sereia que muitos de nós abraçaram
sem resistência sob a ilusão de que
a melhoria nos cuidados em saúde
nasceria espontaneamente desta
transição.
Mas esta lógica não floresceu apenas
nos Conselhos de Administração das
Entidades Públicas Empresariais e
das Unidades de Saúde que então se
(re)fundaram. A sociedade também
interiorizou essa dualidade.
A saúde como bem transacionável
manifestou-se no imediatismo dos
cuidados em saúde. O cidadão, na
prática, tornou-se um consumidor que
aloca recursos. Criou-se um circuito onde
o SNS funciona como rede de retaguarda
para patologias complexas e caras,
enquanto o sector privado (ou públicoprivado) fica com a atividade mais
lucrativa e de baixa complexidade. Esta
dinâmica fragilizou ainda mais o SNS,
que passou a receber maioritariamente
casos difíceis ou sociais associados a
soluções mais problemáticas e caras.
O individualismo cresceu na classe
médica: a noção de colaborador cedeu
terreno à de trabalhador.
A m o t i va çã o p e la re m u n e ra çã o
extra – através de incentivos, horas
extraordinárias ou do duplo emprego
– tornou-se para muitos um imperativo
económico e social, fragmentando
ainda mais o conceito de equipa e de
resultados reais em saúde.
A minha vivência como médico
hospitalar foi um espelho destas tensões
entre valores humanistas e as pressões
emergentes. A completa análise desta
evolução vai para além deste espaço,
pois exige tocar em fenómenos como
o burnout, o idadismo e a perda de
empatia.
Atualmente estamos num novo pontode-viragem. Talvez o mais significativo
na vida do SNS, a uma pequena distância
de produzir uma profunda, rápida
e imprevisível transformação dos
cuidados de saúde em Portugal. Reverter
esta tendência exige um debate franco
sobre que modelo de Saúde queremos,
um investimento decisivo que restaure
ao SNS a capacidade de ser na prática o
garante universal e efetivo do direito à
saúde em Portugal.
Em conclusão, este médico navegou,
nos últimos 25 anos, de um paradigma
de motivação intrínseca para um de
motivação extrínseca, pressionado por
métricas, expectativas imediatistas
e u m a c u l t u ra i n d i v i d u a l i s t a . O
grande desafio para o futuro do SNS
será reconciliar o inevitável avanço
tecnológico com a necessidade
premente de reconstruir a condição
médica. Só assim se evitará que um SNS
público de qualidade desapareça, se
distancie do seu objectivo humanista e
se torne apenas um serviço assistencial
caritativo.