FNAMzine #7 - Defender os Médicos da Reforma Laboral - Flipbook - 2
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editorial
JOANA
BORDALO E SÁ
Presidente do Sindicato
dos Médicos do Norte
Vice-Presidente da FNAM
... Por trás
de cada consulta,
urgência ou visita
domiciliária estão
profissionais
confrontados
diariamente
com sobrecarga,
falta de recursos
e dificuldades
de conciliação
entre vida
profissional
e pessoal.
Defender
os médicos
é uma condição
indispensável
para defender
o SNS
OS MÉDICOS E A
A proposta de reforma laboral apresentada
pelo governo foi chumbada na Assembleia
da República a 19 de junho. A notícia merece
destaque não apenas pelo que impediu, mas
também pela lição que deixa.
O diploma previa jornadas até 50 horas
semanais como norma, bancos de horas
impostos, horários mais desregulados,
vínculos mais precários e restrições a
direitos fundamentais, da parentalidade à
contratação coletiva, da ação sindical ao
direito à greve. Para os médicos, tal como
para muitos outros trabalhadores, representava um retrocesso laboral significativo, com
mais insegurança, menos proteção e maior
concentração de poder nas entidades empregadoras.
Mas esta rejeição parlamentar não aconteceu
por acaso. Também os médicos contribuíram para ela. Participaram nas greves gerais
de 11 de dezembro de 2025 e de 3 de junho
de 2026, estiveram presentes em concentrações e manifestações e fizeram ouvir
a sua voz ao lado de muitos outros profissionais. Fizeram-no porque sabem que
a defesa das condições de trabalho não é
um assunto corporativo: está diretamente
ligada à qualidade dos cuidados prestados
à população. Nenhum direito está garantido
para sempre. E nenhum direito se defende
sozinho. Os médicos sabem-no bem.
As carreiras, os horários de trabalho, a valorização da formação, a proteção do descanso
ou a própria construção do Serviço Nacional
de Saúde (SNS) resultaram de décadas de
participação coletiva e de ação sindical.
Quando os profissionais se organizam, os
direitos avançam. Quando se resignam, os
A defesa do SNS não é apenas responsabilidade dos profissionais.
O SNS existe porque a sociedade em Portugal o construiu e
continuará a existir apenas se a população o defender
µ FNAMZINE | EDITORIAL
retrocessos tornam-se mais fáceis.
É esta a ideia que atravessa as páginas
desta edição da FNAMzine.
Encontramo-la nas entrevistas à CGTP e à
UGT, que recordam uma verdade frequentemente esquecida: os direitos laborais
nunca foram uma oferta. Foram conquistados. Férias, contratação coletiva, proteção
na parentalidade, limites ao tempo de
trabalho ou segurança no emprego existem
porque houve quem lutasse por eles. Encontramo-la também nos testemunhos
dos médicos que partilham connosco a
realidade do SNS. Vindos de diferentes
regiões e especialidades, mostram que os
problemas não são individuais, mas estruturais. Por trás de cada consulta, urgência
ou visita domiciliária estão profissionais
confrontados diariamente com sobrecarga, falta de recursos e dificuldades de conciliação entre vida profissional e pessoal.
Defender os médicos é uma condição indispensável para defender o SNS.
A mesma reflexão surge no 3º Encontro
Nacional de Médicos Internos da FNAM.
Os desafios da formação, da integração na
carreira, da valorização profissional e do
combate ao assédio mostram que o futuro
da profissão não se constrói individualmente.
Também os estudantes de Medicina, nas entrevistas publicadas nesta edição, revelam
preocupações que vão muito além da sala
de aula. Sabem que o futuro da Medicina
dependerá não apenas do seu esforço individual, mas também das escolhas coletivas
que o país fizer. Os utentes recordam-nos
exatamente a mesma verdade. A defesa do
SNS não é apenas responsabilidade dos
profissionais.
O SNS existe porque a sociedade em
Portugal o construiu e continuará a existir
apenas se a população o defender.