FNAMzine #7 - Defender os Médicos da Reforma Laboral - Flipbook - 35
µ 35 | FNAMZINE | março 2026
Ana Bacalhau, a celebrar 25 anos de carreira, é uma figura incontornável
da música portuguesa. Com os Deolinda ou a solo, ficou inscrita
na história recente do país através de temas como Que Parva Que Sou,
canção que ajudou a impulsionar o movimento “Geração à Rasca”
e colocou a precariedade no centro do debate público em Portugal.
FNAMZINE (FZ): Como recordar aquele
momento emblemático no Coliseu,
quando o tema “Que Parva Que Sou” se
tornou num dos motores da “Geração à
Rasca”?
ANA BACALHAU (AB): No início não
tivemos logo noção do que poderia
acontecer a partir de uma canção.
À medida que a cantávamos e víamos
a reação da plateia, percebemos que
havia ali qualquer coisa especial.
Foi um momento muito emocionante e,
de certa forma, irrepetível. Mas também
não aconteceu de um dia para o outro.
Ainda não vivíamos o mundo das redes
sociais como hoje.
Passaram-se algumas semanas até o
vídeo chegar ao YouTube e só depois a
mensagem ganhou outra dimensão.
FZ: Sentiram-se castigados ou
premiados por toda essa situação?
AB: Houve um pouco dos dois.
Ficámos felizes por perceber que a
música tinha tocado tanta gente, mas
não gostámos de ser colocados no
centro do combate político.
Fomos alvo de críticas duras, acusados
de populismo e de nos estarmos a
meter onde não devíamos.
M as as p e ss oas p e rce b e ra m a
mensagem. Nunca escrevemos aquela
canção para obter protagonismo
político. As canções têm vida própria e
defendem-se sozinhas.
FZ: Porque é que a canção incomodou
tanto? E continua atual?
AB: Acho que incomodou porque surgiu
de forma inesperada. Nem a canção
nem o movimento que nasceu à sua
volta podiam ser controlados.
Isso deixou muita gente nervosa.
Quanto à atualidade, infelizmente
continua a fazer sentido.
Temos tendência para reclamar muito,
mas mobilizar-nos pouco. Não basta
indignar-nos nas redes sociais.
As mudanças exigem participação e
ação coletiva.
“Fomos parte de algo coletivo. Sobre o paralelo entre esse momento
e o de hoje, eu acho que nós, tendencialmente, somos um pouquinho
assim fruto dos anos e anos que estivemos em ditadura”
µ FNAMZINE | ANA BACALHAU