FNAMzine #7 - Defender os Médicos da Reforma Laboral - Flipbook - 4
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Sindicato dos Médicos do Norte
É preciso imaginar Sísifo feliz
ALEXANDRA ESTEVES
DELEGADA SINDICAL DO SMN, UNIDADE LOCAL
DE SAÚDE DO ALTO MINHO - MEDICINA INTERNA
Conta a lenda que Sísifo foi o mais
astuto dos mortais. Denunciou Zeus
pelo rapto de uma ninfa. Quando Zeus,
furioso, enviou a Morte para o levar,
Sísifo prendeu-a em correntes. E,
enquanto a Morte estava acorrentada,
ninguém morria. As batalhas não tinham
vencidos, os hospitais esvaziaram-se de
luto. Os deuses não toleraram tal afronta.
A Morte foi libertada, Sísifo morto, mas,
no submundo, convenceu Hades a deixálo voltar à Terra por três dias. Só que
nunca regressou. Viveu até à velhice. No
final, o seu castigo foi simples: empurrar
uma enorme pedra até ao cimo de uma
montanha. Cada vez que chegava ao
topo, a pedra rolava de volta. E Sísifo
regressava ao início. Para sempre.
Em 1942, o filósofo Albert Camus usou o
mito de Sísifo para mostrar o absurdo
da distância entre o que o ser humano
exige: sentido, justiça e dignidade; e o
silêncio indiferente do mundo.
Os médicos em Portugal vivem também
nesse absurdo: formados durante
anos para cuidar de vidas, trabalham
num Serviço Nacional de Saúde (SNS)
com equipas pela metade e com um
Estado que gasta centenas de milhões
em prestadores de serviço porque
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Os médicos em Portugal vivem também nesse absurdo:
formados durante anos para cuidar de vidas, trabalham num
Serviço Nacional de Saúde (SNS) com equipas pela metade
destruiu as condições que fixavam
os profissionais ao SNS. E, quando
a pedra parecia já pesada demais, o
governo decidiu torná-la ainda maior.
A pedra cresce com o Pacote Laboral;
com o banco de horas individual; com
o aumento do período normal de
trabalho até às 50 horas semanais; com
ataques à dispensa para amamentação
ou ao direito ao luto gestacional; com a
restrição do direito à greve e à liberdade
sindical.
A FNAM tem-se destacado pela sua
luta incessante em defesa do SNS. As
vitórias alcançadas e a recuperação
da confiança dos médicos são reflexo
disso. Haverá sempre montanhas.
Haverá sempre pedras. Haverá sempre
governos que confundem a resiliência
dos médicos com aceitação. Mas o
facto de a vocação nos fazer felizes não
significa que aceitamos um castigo
eterno desenhado pela incompetência.
Um serviço que conta com a exastão e
o silêncio dos médicos para funcionar
vai ser confrontado por médicos que se
recusam a estar esgotados e silenciosos.
«A luta em si basta para encher o coração
de um homem. É preciso imaginar Sísifo
feliz.»